sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Experiências de leituras em sala de aula: Parte 1


        Estava ansiosa para partilhar com vocês, em especial professores e professoras, a delícia que foi a aula de Língua Portuguesa (ou Linguagens, como queiram) ontem, em uma das minhas turmas da 7ª série (8º ano) do Ensino Fundamental. A leitura de textos, para  a maioria dos nossos alunos, é uma hora considerada chata, muitas vezes até indesejada. Pensando nisso, desde o ano passado, além de trabalhar com o projeto Contação de Histórias (podemos conversar sobre o projeto em outra oportunidade de forma mais detalhada) busco, em sala de aula, trabalhar textos de uma forma mais lúdica. Uma vez por unidade de ensino, pelo menos, escolhemos um texto ou mais para ser lido em grupo (pode ser do próprio livro didático ou outros), e lançamos um desafio: cada grupo pode apresentar o texto ao restante da turma da forma mais criativa possível. E faço uma lista de sugestões na lousa: dramatização, anúncio de publicidade, uma carta, uma paródia, um poema, enfim....

         Na última vez que fizemos essa atividade, tive uma surpresa deliciosa. Um trio de meninas conseguiu sintetizar, em forma de poema, o conto A Festa, de Carlos Eugênio Junqueira Ayres, de maneira tão interessante e “redondinha” que tinha que homenageá-las e apresentá-las aos meus amigos e amigas blogueiras. São elas: Glécia Soares, Gilvania Silva e Jaine, 7ª A, do Colégio Estadual Antonio Carlos Magalhães. 
         Cada vez mais me convenço de que não podemos, de hipótese alguma, subestimar nossos alunos e alunas, muito menos, deixarmos a monotonia tomar conta de nossas aulas. A vocês, garotas, a todos os meus alunos, obrigada por acompanhar minhas aventuras em sala de aula. Adoro!!
Olha o trio aíííííí, geeeeente!!!!



          Logo abaixo, o poema produzido pelas alunas e, em seguida, o conto completo.
       Boa Leitura. E fiquem à vontade para, na parte destinada a comentários, partilhar experiências acerca de como você trabalha a leitura em sala, dar sugestões de temas, partilhar textos, deixar seus questionamentos etc etc etc etc rsrsrsrs. Abraços e até a próxima. Só uma observação, a minha colaboração foi apenas ajudá-las na divisão das estrofes e correção ortográfica. 

  

A Festa


Ao primeiro conto do galo,
a festa acabou,
ninguém saiu, ninguém entrou.
Antes, ainda se aproximava,
da casa iluminada,
a porta da frente ficava sempre fechada.

Ela mesma nunca vira nada,
por lá, um tanto seca,
não gostava de conversar.
Dona Mercedes encomendou a tela, a um pintor famoso,
com as seguintes recomendações:
os retratos deveriam mostrar-se alegres, sorridentes
e seus rostos voltados pra frente.

Um dia, a gravação se calou.
Quando o galo cantou,
quando Otilia a encontrou.
Não mais se dançava,
não mais se conversava,
não mais havia festa naquela casa.

Glécia Soares, Gilvania Silva e Jaine, 7ª A, do Colégio Estadual Antonio Carlos Magalhães. (Poema produzido a partir do Conto A Festa de Carlos Eugênio Junqueira Ayres)


A festa (conto)
Ao primo canto do galo, a festa acabou. Como por encanto, a música cessou, a luz se apagou, as janelas do casarão no fim da rua se fecharam. Ninguém saiu, ninguém entrou. Como sempre.
Os vizinhos já tinham presenciado aquilo algumas vezes, mas nunca se acostumaram. Antes, ainda se aproximavam da casa iluminada, intrigados por não terem visto ninguém chegar nem entrar. Nada se via lá dentro, embora a música tocasse e o vozerio saísse pelas janelas. Estas eram altas, é verdade, mas permitiriam pelo menos divisar cabeças, o que não acontecia. A porta da frente sempre ficava fechada.
O pessoal então voltava no mesmo pé, se benzendo. No início, chegaram até a questionar a senhora que ali morava sobre aquelas manifestações, mas ela respondera secamente:
- É um encontro de velhos amigos.
Dona Mercedes morava sozinha e reclusa, desde que ficara viúva há vários anos. Não tinha filhos nem parentes vivos. Ninguém a visitava regularmente, só uma antiga empregada, Otília, que ainda vinha fazer o serviço diário. Ela mesma nunca vira nada de extraordinário por lá, e, um tanto seca, não gostava de conversar sobre os hábitos de sua patroa. Cortava sempre a curiosidade alheia. Toda quinzena ela trazia uma sobrinha para ajudá-la na faxina.
De dia, havia algum movimento lá dentro, principalmente na cozinha e nas dependências de trás. À tardinha, entretanto, a empregada se retirava e o silêncio caía sobre o casarão. Dona Mercedes ficava só, com as suas lembranças.
Quando a solidão apertava, ela resolvia dar uma festa. Para seus convidados.
A casa era toda decorada com móveis e peças antigas e valiosas, resquícios de um passado opulento. Pratarias, faianças, louças e cristais estrangeiros se distribuíam pelos ambientes. Toda semana dona Mercedes, pessoalmente, supervisionava a faxina da casa, principalmente a cuidadosa limpeza de suas antiguidades.
Otília ficava imaginando para quem iria aquilo tudo depois que ela morresse. Que soubesse, de conhecido dona Mercedes só tinha um velho advogado que cuidava de seus interesses e que a visitava duas vezes por ano, para assinatura de papéis.
No grande salão de visitas, havia um quadro que cobria boa parte da parede. Retratava uma festa, gente sentada conversando, outras de pé, pares dançando ao som de uma orquestra de cordas, ao fundo. Todos bonitos, muito bem vestidos, como antigamente. Mas as fisionomias eram familiares à velha senhora.
Alguns anos após perder o marido e sentindo a saudade, a solidão e o peso da idade chegarem, dona Mercedes encomendou a tela a um pintor famoso. Entregou-lhe vários retratos, do marido, de parentes e amigos mais próximos, já mortos, todos queridos, com as seguintes recomendações: os retratados deveriam mostrar-se alegres, sorridentes, seus rostos voltados para a frente; os olhos convergindo para um ponto de tal forma que, de qualquer parte da sala onde estivesse o observador, todos estariam olhando para ele.
O salão normalmente ficava fechado e só era aberto para a faxina ou quando dona Mercedes dava seus saraus.
Nessas ocasiões, após a saída da empregada, ela se vestia a caráter, acendia as luzes da casa, abria os janelões e colocava no toca-fitas uma gravação de som ambiente de festa, com conversas, risos e música ao fundo - única concessão moderna que aceitara em sua vida, por conveniência.
Sentava-se então na poltrona em frente ao quadro, com uma taça de vinho na mão, e seu espírito se integrava ao ambiente da tela, conversando e confraternizando-se com os entes queridos.
Um dia, a gravação se calou, as luzes não se apagaram quando o galo cantou. A manhã chegou e as janelas continuaram abertas. Quando Otília a encontrou, a velha senhora estava ainda em sua poltrona. Parecia dormir serenamente, com a taça tombada aos pés e o vinho derramado no tapete.
Na quadro em frente, as figuras agora tinham os rostos sérios, tristes, lágrimas escorridas pelas faces. Os instrumentos pendiam inertes nas mãos dos músicos.
Não mais se dançava, não mais se conversava. Não mais haveria festa naquela casa.
(Publicado em A Tarde Cultural - 26.08.2000)






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